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2 de janeiro de 2014

Ó, Merida, não seja tão ingênua!


Tudo o que a Condessa Elinor e o Conde Fergus desejavam era que a filha não passasse pela fase da rebeldia, tão famosa durante a adolescência. Mas, apesar de ser uma nobre, Merida era exatamente igual a todas as outras garotas da terra de Ether, a diferença era que ela obrigada a estar presente nas aulas de etiqueta e comportamento adequado a uma dama. Pobre Condessa, não poderia ter ficado mais decepcionada ao ver que tais lições não surtiam efeito algum em Merida. A garota continuava a sentar-se de maneira imprópria e a correr pelo castelo com seus irmãos mais novos, fazendo mais barulho do que deveria. Elinor ficou ainda mais apreensiva com a situação da filha quando, em seu aniversário de 18 anos, foi presenteada com um arco e flecha pelas mãos do próprio Conde Fergus. É claro que isso contribuiu para o fascínio da garota pelas armas, e a partir de então ela insistiu para assistir às aulas de tiro e duelo juntamente com os futuros cavalheiros de Labuta. Oh, se a Condessa achava que o destino de Merida já estava arruinado, ela morreria de desgosto com o que o futuro lhe reservava.


A menina tinha o espírito livre e aventureiro e pensava ser um verdadeiro desperdício de tempo passar o resto da vida em um palácio se comportando como uma… como uma dama! Ela estava cada vez mais frustrada com a rotina que levava e começou a planejar sua fuga. Não pense que Merida toma decisões no calor do momento, pelo contrário, todas as suas ações são calculadamente planejadas e o seu plano de fuga lhe custou meses de estudo sobre os turnos de ronda dos guardas. Tudo aconteceria durante a noite, quando a família real e sua corte estivessem adormecidos. A garota desceria as escadas até o átrio e teria apenas trinta segundos para alcançar as enormes portas do castelo antes que a troca da patrulha fosse feita. Seus pulmões ardiam quando seus pés finalmente tocaram a fronteira entre o seu antigo lar e o restante do reino. A única coisa que havia levado consigo era o seu arco, em parte pois não queria carregar nada que remetesse ao que havia deixado para trás, e em parte porque tudo o que precisasse poderia ser conquistado com algumas flechadas, fosse para roubar comida ou para machucar alguém que estivesse em seu caminho. Merida foi abrigada por uma velha camponesa e passou dias e mais dias vivendo com a plebe de Labuta. Por vezes a jovem sentia-se grata a seus pais por não permitirem que ela se afastasse muito do castelo, dessa forma as pessoas com quem convivia agora não faziam ideia de que era ela a filha mais velha do Conde Fergus. O povo era trabalhador e, apesar da forte crise que afetava o reino, não perdia a alegria e a motivação de obter resultados, mesmo que pequenos, através de seu esforço, e essa era uma qualidade que a menina admirava com vigor.

Apesar de estar feliz com a vida que começava a viver, Merida ainda não estava completamente realizada. Ora, ela havia abandonado sua família para ser livre, e não queria se fixar em apenas um lugar. A menina queria conhecer o mundo, queria absorver novas informações, queria deixar uma parte de si em cada terra por onde passasse. E foi com esse pensamento que ela abandonou os campos de Labuta e partiu à procura da sua verdadeira liberdade.

Merida ouvia frequentemente sobre o perigo que a floresta de Sherwood oferecia a forasteiros desavisados, mas ainda assim decidiu peregrinar por lá, afinal ela não era uma viajante qualquer. Sabia se defender, e agora, além de seu arco, trazia uma faca escondida na cintura. É claro que não seria pega de surpresa. Pelo menos era o que pensava. Sentiu-se miserável quando foi cercada por piratas no meio da floresta e mal havia tocado o arco nas costas quando foi derrubada no chão de terra. Poderiam pensar que ela era apenas uma garotinha indefesa, mas Merida sacou a faca e enfiou no primeiro vislumbre de pele que teve. Péssima escolha, minha querida. Ao que parece, a menina nunca havia trombado com piratas antes e não podia imaginar que as consequências de um simples ato — como esfaquear o ombro um deles —, pudessem ser tão severas. Poucas horas depois, Merida via-se na prancha do Quimera, o navio do Capitão Simbad, caminhando para sua morte. Mas não era do feitio da menina cair sem lutar. Recusou-se a dar mais um passo e gritou umas verdades bem escolhidas para Simbad, acusando-o de ser um pirata medíocre que temia perder a lealdade de seus homens para uma garotinha mais habilidosa que ele. É evidente que o capitão não deixaria que tais insultos fossem jogados contra ele e ordenou que dessem uma espada para a menina. Duelariam até a morte e o vencedor ficaria com o Quimera e sua tripulação.

Talvez o pior defeito de um pirata seja pensar ser superior a qualquer um que cruze seu caminho. Merida sabia que não seria alvo da piedade de ninguém e, portanto, teria que lutar como um cavalheiro. E foi o que fez, aplicando golpes bem dados e usando seus reflexos da melhor forma. Um rodopio com a espada desarmou seu oponente, e a ponta da lâmina da menina espetava levemente o pescoço de Simbad. No entanto, matar não fazia parte da sua índole e foi logo jogando a espada pra longe, saboreando o delicioso gosto da vitória. “Eu poderia matá-lo se quisesse. Não se esqueça disso, capitão.” Foram as palavras de Merida para o pirata, que acabou concordando em mantê-la a bordo do Quimera, desde que se mantivesse leal a ele.

Não apenas motivada pela lealdade a Simbad, Merida nutria um ódio cada vez maior por um certo Capitão Gancho, o maior rival de seu líder. Apesar de não ser inclinada a assassinatos, a menina torcia para que o pirata acabasse com uma flecha atravessada no pescoço, mesmo que fosse ela a responsável por tal feito. Repudiava o modo como ele não media esforços para conquistar o que queria e detestava a sua personalidade arrogante, o que fazia com que Gancho se tornasse o oposto de tudo que julgava correto. Ora, minha menina, você agora vive com piratas, já deveria ter-se acostumado com grandes doses de atrevimento e petulância. Quem sabe um dia não se habitue a tais traços…

A tão sonhada liberdade havia sido conquistada e agora Merida esbanjava ousadia pelas regiões por onde o Quimera passava, sendo conhecida pela sua grande coragem e seus cabelos beijados pelo fogo.

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